Poema Traduzido: Instruções

Neil Gaiman

Neil Gaiman

Neil Gaiman parece ter feito de seu poema Instructions um efetivo guia. A pergunta que surge é, instruções para quê? Gaiman é um autor de livros de ficção e fantasia, e talvez um dos elementos mais recorrentes em suas obras seja o medo. Autor de obras como Caroline e Sandman, ele parece dar-nos instruções para fazer o que ele fez em sua trajetória; olhar para o medo com especial reverência, um misto de respeito, temor e admiração.

Pense nisso por um instante, reverenciar o medo…

Medo e aventura estiveram sempre bem próximos, imagine o medo dos astronautas ou dos navegadores. Melhor ainda, lembre do medo do primeiro dia de escola, do primeiro amor e do primeiro beijo. Essa aproximação entre medo e aventura está conectada ao longo de todo poema. Mais do que isso, conexão entre medo e aventura é existencial. Nós somos todos apresentados ao medo quase que ao mesmo tempo em que descobrimos o mundo. Não é a vida a aventura original? E quão fundamental é o sentir medo nessa experiência? O medo talvez seja nossa memória mais antiga. Tomando a experiência do parto como prólogo da nossa existência, o choro que o segue parece ser forte indício comprovatório dessa tese. O início da nossa aventura existencial, potencialmente o motivo de muita espera e felicidade para os pais, é inaugurada pelo medo da parte de quem nasce. Nascemos com medo.

Assim sendo, as instruções de Gaiman são bastante valiosas, pois o medo não é apenas inaugural, é também uma experiência recorrente ao longo de toda vida. Não é mera abstração, sentimos no próprio corpo de tão intenso que é. Porém, há nas instruções uma mensagem persistente; insista, vá adiante, não rejeite o medo. Gaiman é prova viva de como medo e fantasia andam lado-a-lado. Isso porque sua intensidade parece ser quase que mágica. Medo, imaginação e mistério são bem próximos. Quantas vezes juramos ter visto um vulto no escuro, nos sentimos vigiados ou outras coisas de gênero? Também pode ser fonte de prazer. Não é gostoso vencer um medo, desvendar um mistério, assustar alguém? Não poucas vezes o medo nos ensina aquilo que é importante para nós. Ele pode nos impulsionar ou redirecionar. Ele nos aproxima de pessoas, porque juntos nos sentimos mais seguros. Quantas pessoas especiais descobrimos nos piores momentos? Não são os  perrengues assunto recorrente na mesa de bar? Quantas risadas damos juntos depois de tudo? O quanto de vida um friozinho na barriga desperta? E mesmo os medos mais radicais, aqueles difíceis de contornar, ao menos nos mostram os caminhos que devem ser encerrados, para que outros possam ser trilhados. Como diz Gaiman no poema, não há vergonha em dar meia volta. Nos tornamos melhores enfrentando nossos medos, mas para enfrenta-los, devemos antes reconhece-los. Ele nos ensina também compaixão, quando somos generosos com aqueles que antes nos despertavam medo. Assim, enfrentar o medo também é enfrentar preconceitos, pois esses são construídos através daqueles.

Lembre, no final, fazemos de tudo para criar nosso espaço, nosso lugar no mundo… nossa casa. E casa é justamente o lugar que construímos para nos proteger dos medos. Assim, se o lar é aonde nos sentimos seguros, o medo acaba se tornando uma estranha fonte de engenho.

Respeite seu medo, ele é terrível e mágico, como qualquer bom conto de fadas.

música para acompanhar:

The Bard’s song – Blind Guardian

Felagund Among Bëor's Men, by Ted Nasmith
Felagund Among Bëor’s Men, by Ted Nasmith

Instruções

Toque o portão de madeira na parede que você nunca

tinha visto antes.

Diga “por favor” antes de abrir a trava,

atravesse,

percorra o caminho.

Um rubro diabinho metálico pendura-se na verde

porta da frente,

uma aldrava,

não toque-a, ela irá morder seus dedos.

Ande pela casa. Não pegue nada. Não coma nada.

No entanto, se alguma criatura te disser que está faminta,

alimente-a.

Se te disser que está suja,

lavia-a.

Se choramingar dizendo que dói,

se você puder,

amenize sua dor.

Dos fundos do jardim você poderá ver

o bosque selvagem.

O poço profundo que seus passos atravessam levam ao

Reino Invernal;

há uma outra terra no fundo dele.

Se você der meia volta aqui,

ainda poderá regressar, em segurança;

você não perderá credibilidade. Meu apreço por você não será reduzido.

Uma vez atravessado o jardim você estará no

bosque.

As árvores são antigas. Olhos espiam

da vegetação rasteira.

Abaixo do carvalho retorcido senta-se uma velha senhora. Ela

pode pedir algo;

dê o que lhe for pedido. Ela

indicará o caminho ao castelo.

Dentro dele estão três princesas.

Não confie na mais nova. Continue os passos.

Na clareira além do castelo os doze

meses sentam-se ao redor da fogueira,

aquecendo seus pés, trocando fábulas.

Eles podem fazer favores, se você for educado.

Você pode pegar morangos na geada de Dezembro.

Confie nos lobos, mas não lhes diga

seu destino.

O rio pode ser atravessado por barca. O barqueiro

te levará.

(a resposta a pergunta dele é:

se ele entregar seu remo ao passageiro, ele estará livre

para deixar o barco.

Apenas lhe diga isso a uma distância segura.)

Se uma águia lhe der uma pena, guarde-a a salvo.

Lembre: que gigantes dormem profundamente; que

bruxas são frequentemente traídas pelo próprio apetite;

dragões têm um ponto desprotegido, em algum lufar, sempre;

corações podem ser bem escondidos,

e você os trai com sua lingua.

Não se enciume de sua irmã.

Saiba que diamantes e rosas

são tão desconfortáveis quando tombam

dos lábios de alguém quanto sapos ou rãs:

gelados, também, e afiados, eles cortam.

Lembre de seu nome.

não perca a esperança – aquilo que se busca será encontrado.

Confie nos fantasmas. Confie naqueles que você ajudou

para que ajudem você de volta.

Confie nos sonhos.

Confie no seu coração, e confie na sua história.

Quando você voltar, retorne pelo caminho que veio.

Favores serão retribuídos, dívidas serão quitadas.

Não esqueça seus modos.

Não olhe para trás.

Monte a águia sábia (você não cairá).

Monte o peixe prateado (você não se afogará).

Monte o grande lobo (segure firme em seu pelo).

Há um verme no coração da torre; é por isso

que não ela não se sustentará.

Quando você alcançar a pequena casa, o lugar

em que sua jornada começou,

você irá reconhece-la, mesmo que pareça

muito menor do que você lembrava.

Siga seu caminho, pelo portão do jardim

que você nunca tinha visto, exceto uma vez.

E então vá para casa. Ou faça uma casa.

E descanse.

Poema Traduzido: Untitled

 

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No exato instante em que escrevo ouço o som da chuva lá fora e, posso jurar, que é como se chovesse dentro de mim também. A chuva tão aguardada enfim chegou. Que estranhos solos a chuva pode tocar, irrigar e nutrir. Se a alma tivesse algum cheiro seria, com toda certeza, o cheiro da terra molhada… e porque não, de terra em êxtase. Cheiro, aliás, similar com o que sinto quando estou prestes a chorar; leve despressurização na cabeça, a gravidade se perdendo um pouco, a vista nublada começa a transbordar e de repente o milagre. Assim brota o maná, fonte de água que alimenta a vida, mesmo sem que jamais se tenha bebido dela, nem sequer uma única gota. As lágrimas são sagradas,  verdadeira água benta. Muitos costumam consagrar um copo d’água, e me pergunto se são muitos os que consagram suas próprias lágrimas? 

Hoje resolvi traduzir o poema untitled, de James Baldwin. E não sei bem porquê, aonde eu lia chuva, eu via lágrima. Talvez, sem querer, associe o próprio Baldwin à chuva (e ao choro). São ambos tão sensíveis e poderosos… E se essa chuva pode ser choro, isso pode evocar, no poema, à vezes que sentimos o medo de nos desfazermos na torrente lacrimal, sem que não sobre mais nada. Estamos sob o tremendo peso de nossas lágrimas, principalmente das que não choramos.  Porém, uma vez liberadas, essas águas podem saciar terras e sedes estranhas e profundas. Dor purificada. O êxtase da terra molhada.

 

música para acompanhar: Frozen – Joonas Haavisto

 

Sem título

Senhor,
                quando você enviar a chuva
        pense sobre isso, por favor,
        um pouco?

Não
       se deixe levar
       pelo som da água caindo,
       pela maravilhosa luz
         da água caindo.

Eu
        estou debaixo dessa água.
        Ela cai com grande força
        e a luz
Cega-me
       para a luz.

tradução livre

Poema Traduzido: Downpour

 

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Untitled, 1971, Watercolor, Terry O’Shea

 

Dias atrás resolvi passear pela acumulada lista de podcasts que sigo, até que topei com o Poetry, podcast da revista estadunidense The New Yorker. Poetry é um programa em que poetas são convidados a escolher um poema do acervo da revista. A obra escolhida é então  declamada e comentada, na sequência o convidado declama um poema de autoria própria. É o tipo de programa que requer um momento de intimidade, separado da rotina, das tarefas e do barulho. Ele pediu, e gentilmente me separei.

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Billy Collins

Talvez mais do que qualquer coisa, o que me chamou a atenção foi o autor escolhido, Billy Collins, poeta renomado dos EUA, que há pouco tempo tinha se introduzido na minha lista de poetas. Collins tem uma marca própria em seus poemas. Ele traça um caminho que parte de lugares concretos e comuns, levando gradativamente seu leitor ao encontro com sua própria sensibilidade. São estradas de ternura e reverência compartilhadas através de cenas e objetos familiares. Por isso, ao ver seu nome na descrição do podcast meu interesse foi imediato.

O poeta convidado, Clarence Major, justificou a escolha do poema Downpour por perceber nele um diálogo com o momento atual. Ele identificou reverberações não só no tema, mas também nos lugares e situações  que o poema invoca; a mesa de jantar, o supermercado, o trajeto entre mercado e a casa, as listas e etc. Ao ouvir o poema, percebi que queria transmiti-lo ao meu pai, e foi desse impulso que surgiu a ideia de traduzir o Downpour de Billy Collins. E na síntese do poema, e da tradução, o que essa experiência de fato traduziu em mim foi a percepção de que a trilha à ternura, sensibilidade e compaixão (a estrada poética) é também feita através da  construção de espaços (vias) compartilháveis, lá onde se pensava não existir. Uma luta pela existência compartilhada, não total, porque seria autoritária, mas dos encontros, as vezes improváveis, da experiência compartilhável possível. Entre escombros e esquinas, a vida.

*obs: tradução livre e poética, não literal, mas atenta ao estilo e sentido do poema e de seu autor.

 

Dilúvio

 

Passamos a noite passada no sofá

tentando relembrar

os amigos que morreram até agora

 

Na manhã de hoje anotei seus nomes

em ordem alfabética

no avesso da lista de compras

que você deixou na mesa de jantar.

 

Tantos amigos que foram varridos

como que por uma mão celestial,

como foi bom reinvocá-los,

e eu divagava

sob as frias luzes de um supermercado

enquanto guiava o carrinho de rodinha quebrada

pra cima e pra baixo por suas longas e estridentes alas.

 

Eu estava em busca de amoras,

bolinhos, macarrão, creme de leite,

lâmpadas, maçãs, bacons

e qualquer outro item da lista,

a qual mal conseguia manter em pé,

 

Até ter passado através das portas automáticas,

onde parei para perceber,

enquanto revertia a lista,

de que havia esquecido de Terry O’Shea

bem como dos pães e das bananas.

 

A chuva vertia por eles,

derramava-se, como dizem na Irlanda,

pessoas se espirrando por toda parte em direção aos seus carros.

E foi então que me pus a partir,

num andar devagar e preciso,

um homem enxarcado

carregando sacolas de suprimentos

caminhando como que numa procissão honrando os mortos.

 

Senti que devia isso ao Terry,

que fora tão vigoroso pintor,

devia por quase tê-lo esquecido

e a todos os outros que agora formavam

um círculo ao seu redor na tela da minha mente.

 

Agora já vagava mais lentamente

em companhia da compaixão

os mortos se demoravam ante seu antigo camarada,

 

Além do mais, com pressa não estava

para retornar à mesa do jantar, onde te transmitiria

todas as coisas sobre, pães, bananas e Terry O’Shea.

 

Desejo de transformação e a espectralidade

 

latmosphere-camille-flammarion-1872-a-brocken-spectre-prints   Arte: Ninboy Prints

Derrida na introdução de Espectros de Marx faz uma provocação, de que é preciso viver entre os fantasmas para que se possa viver de forma mais justa. A presença dos fantasmas se estabelece, diz ele, aonde quer que se passe entre dois; o eu e o outro, vida e morte, presença e ausência, memória e esquecimento. São esses alguns dos inumeráveis “entre dois” a que somos constantemente expostos, talvez por isso os fantasmas nunca estejam a sós. Por serem multidões e estarem em tantos lugares, estar entre fantasmas e pensar neles, é também o exercício de uma política da memória. 

Falar dessa política da memória é falar de dever de memória e da justiça, uma justiça que excede a norma, mais ainda, o próprio texto. Extrapola o texto, porque é falar e zelar pela justiça dos ausentes (ausentes não presentes, ou ainda, os presentes ausentes do texto, da norma, do direito), em defesa do que Michael Pollak chamou de memórias subterrâneas. A memória subterrânea é aquela não institucionalizada, que é pautada pela sua singularidade, em oposição a história geral, generalizante, textual e dos grandes eventos. Ela sobrevive silenciosamente através de sua oralidade (daí outra forma de separação do texto) através de gerações, muitas vezes com narrativas subversivas e que contestam o conteúdo e sentido da memória coletiva nacional. Seus titulares são aqueles que se vêem como estranhos ao corpo social, os excluídos e seus descendentes, seja pelo arranjo político-social, seja por traumas históricos. 

Além disso, Pollak acentua a importância fundamental das memórias na sociedade, pois seu papel é o de reforçar coesão social e afetiva entre seus integrantes e os diferentes grupos nela presente. Contudo, diz o autor, não se deve perder de vista questões como ‘de que forma’, ‘por quem’ e ‘para quem’ essas memórias são solidificadas e institucionalizadas, até tornarem-se reconhecidas como oficiais e verdadeiras. Além disso, uma vez que não se poderia representar todas as narrativas, é fundamental se perguntar quais foram “atropeladas”, deixadas de lado e com que intuito. Esses seriam uns dos papeis de se pensar criticamente a memória. O que está em jogo nesse processo de pensar a memória e suas funções é muito mais do que simplesmente questionar a construção e enquadramento do passado, mas, acima de tudo, a sobrevivência da identidade e cultura desses grupos excluídos, que são impedidos de representar suas memórias, seus traumas e luto, devido a uma narrativa outra que não lhes confere lugar. Pensando desse modo, a luta pela memória não é o mesmo que uma luta pelo passado, mas pelo futuro. Um futuro que para ser garantido as vezes precisa de um equilíbrio tênue e difícil entre acolhimento e espaço, a possibilidade do não dito, em que o silêncio possa ser também condição de existência dessa memória; o olhar de luto, da dor e do trauma, como olhar demorado, próprio de um trabalho e tempo diferente, anacrônico como os fantasmas, nem sempre compreendido pela sociedade contemporânea do imediato e instantâneo. 

Retornando aos espectros, Derrida assinala que são sempre mais de um, são gerações de espectros e suas heranças. Se relacionarmos as memórias subterrâneas às lutas dos grupos excluídos contra o esquecimento de gerações passadas, de seus mortos, injustiças, dores e traumas, segue-se o pensar sobre a herança destes ausentes. Agamben, nesse sentido ajuda a pensar essa herança, quando assinala que o amor ao morto, é sempre o mais exigente, por estar sempre a um passo do esquecimento, nos colocando em perpétua dívida. A herança do morto é o dever de não se esquecer daquele que não está mais presente, de decifrar suas cifras, assinaturas e seus sinais, aquilo que permanece presente em sua não-presença, é como diz Derrida, reconhecer e reivindicar o que resta, e a voz que se reconhece nesses restos. É também permitir e testemunhar seu regresso, fazê-lo regressar, conjurá-lo, mas não num regresso do mesmo, mas a singularidade desse ressurgimento. 

Ademais, segundo Derrida, falar desses espectros é também falar de justiça, e justiça alguma é possível sem o princípio de responsabilidade para com os não presentes, não vivos. De certo modo, falar dessa responsabilidade, é viver em respeito à memória e herança desses fantasmas, dívida permanente, e através destes garantir às gerações do porvir as suas condições de existência, de prover esse porvir. É procurar o reconhecimento e sobrevivência do singular, do outro totalmente outro ante à sociedade totalizante e generalizante, oferecer resistência a um tempo desajustado, demorado, que desajunta seletivamente determinados corpos desse corpo social. A responsabilidade dessa justiça num efeito duplo, que é dar o lugar de singularidade ao outro, condição de sua vida e existência; mas também reclamar um lugar para todos os que foram deixados, apartados, irremediavelmente aparados do corpo social, carregar suas vozes e sonhos de justiça. 

Por fim, se os fantasmas são aqueles que não estão presentes, nosso dever é não esquece- los, ouvir sua voz, o que diziam, e que por isso, o que continuam a dizer, tornando-os presentes, (embora não presentes) em nossa luta, trabalho de luto por estes que nos emprestam as suas vozes; ser o espírito desses espíritos, que é, portanto, trabalho, potência de transformação. Viver à procura desses espectros, denunciando e resistindo àqueles que caçam a lembrança e o local em que resta de seus restos. Belamente a psicanálise coloca o fantasma/fantasia em íntima relação com o desejo e o sonho, reorganizando as sequências narrativas de nossa memória, retornando sempre aos momentos primordiais e assim transformando o mundo que vemos, realizando uma “ontologia fantasmática”. Desse modo o fantasma pode tornar-se um operador filosófico, na maneira como pode reorganizar as cadeias narrativas, desafiando os sentidos e instituições que garantem sentidos fixos e ‘oficiais’ da história e identidade do corpo social. No seu potencial de resistir ao esquecimento institucional seletivo e brutal. De transformar o luto dos não-presentes, aos que foram mortos, os que não puderam viver, em luta. Acertar os eixos do tempo desajustado, lutando pela justiça do outro e dos não vivos, os que foram mortos e aos que ainda viverão. Diante de tudo isso faz-se ainda mais imperioso desejar viver entre esses fantasmas, viver entre eles é também acessar o desejo de transformação. 

 

*OBS: Esse texto foi concebido como trabalho final da Disciplina Filosofia da Cultura IV, ministrada pelo Prof. Doc. Diego Reis, dentro da faculdade de Filosofia na UFRJ no ano de 2018.

Colher o dia, amar o destino e lembrar da morte: Horácio e a Ode I,11.

Navegando o Aqueronte pt.2 

Então é isso, vamos todos morrer, o tempo é valioso e é preciso aproveitar a vida. Aproveitar a vida… aproveitar o dia! Carpe Diem! É isso!? Isso, mas é um pouco mais do que isso. Carpe Diem é um termo que ficou muito famoso na história através do poeta romano Horácio ( 65 a.C – 8 d.C), em sua Ode I, 11. Em latim o termo significa simplesmente ‘colhe o teu dia’. Muito mais do que buscar fazer coisas legais compulsivamente, compreender o termo como os latinos o pensavam exige um olhar mais demorado. A metáfora com a colheita é relevante no sentido específico da urgência do tempo. Pensar o tempo não só numa dimensão positiva, a chance de aproveitá-lo, mas também na sua forma negativa e trágica, o risco de perdê-lo, o desperdício. Se você não colher, a colheita estragará e terá sido desperdiçada, definitivamente perdida. Há aí alguma urgência, se puder colher, seja o que for, colha, pois a hora só pode ser essa. Não se escolhe o momento do amadurecimento.

Ode I,11

Indagar, não indagues, Leucotói

qual seja o meu destino, qual o teu:

nem consulte os astros, como sói

o astrólogo caldeu:

 

Não cabe ao homem desvendar arcanos!

Como é melhor sofrer quanto aconteça!

Ou te conceda Jove muitos anos,

Ou, agora, os teus últimos enganos,

– Prudente, o vinho côa e, mui depressa

A essa longa esperança circunscreve a tua vida breve.

 

Só o presente é verdade, o mais, promessa…

O tempo, enquanto discutimos, foge:

Colhe o teu dia, – não o percas! – hoje.”

O poema ainda invoca um outro precioso termo romano, celebrado por Nietzche séculos e séculos mais tarde: Amor Fati. Essa segunda expressão latina significa ‘amor ao destino’ e é muito importante para se entender o Carpe Diem. O termo está implícito e explícito nesse poema de Horácio. Implícito pois este não exorta a colher  somente a boa colheita. A vida, sendo absoluta e única, não nos concederá todas as oportunidades, nem mesmo uma proporção ajustada e medida entre os momentos bons e ruins. Desnecessário demonstrar quantas medidas na vida são categoricamente desmedidas. Amor Fati é perceber que tudo na vida é sagrado, mesmo as dores e o fado. Sobre isso Horácio é explícito quando diz, “Como é melhor sofrer quanto aconteça!”. Até porque, adiantar dores futuras só nos faz sofrer mais, no mínimo em dobro, o que já é muito.

Contrariando a intuição, que nos faz querer apartar toda e qualquer dor, ela é de fato algo muito importante.  Como negatividade a dor promove uma ruptura do continuum narrativo de nossas vidas, ela pede, por vezes exige parada. É nesse desacelerar que temos a oportunidade de reavaliar aquilo que foi feito até então, uma oportunidade de auto-análise, de conhecer melhor a si mesmo. Além disso, essa pausa produz um efeito ético, pois aquele que é sensível as suas próprias feridas, está um passo mais próximo da sensibilidade de reconhecer a dor do outro. Em oposição, quantas pessoas atropelam suas faltas, e junto delas, tantos outros no caminho? 

Em suma, o importante aqui é reconhecer o nexo entre Carpe Diem e Amor Fati. Porquanto, a direção inexorável que o destino nos impõe, o maior desafio ao amor ao destino, é o destino final. O que une e dá sentido ao Carpe Diem e  Amor Fati é outra expressão latina, Memento Mori, “lembra-te que morrerás”. Só colherá todos os frutos, aquele que entender a urgência do ato, dada a efemeridade tanto daquilo que se colhe, quanto daquele que realiza a colheita. Quem aprendeu a amar seu destino o faz por saber que todos os acontecimentos da vida só podem ocorrer até a morte, e portanto precedem e anunciam ela. Ele sabe o quão precioso e urgente se faz desfrutar cada gota de vida.  O amor pela vida é tão deliberado que a distinção entre doce e amargo, apesar de importante, apenas atesta a complexidade e o valor da vida. A dor e o prazer são extremamente qualitativos, interferem no juízo que fazemos das coisas, e assim, no nosso agir sobre o mundo. Apenas a natureza e a morte podem ser indiferentes. Por isso, colher, seja o que for, sempre contribui para expandir nosso juízo e agir na vida.

Assim, até que se esgote o cálice da vida, todo o seu conteúdo é sagrado, porque a vida é uma dádiva, ela é excelsa. Basta olhar ao redor, em todo o cosmos, aonde quer que a vista humana alcance, alcança apenas vastos desertos. A ‘vida complexa’ é muito, muito rara, e é ela que temos em mãos. E se nos queimas as mãos ao toque, se teima em arder nossa existência, é prova ainda maior de que existimos, verdadeiramente complexos. Dor, angústia, medo, pânico são atributos da vida, tais como o prazer, exuberância,  êxtase e euforia. Talvez a fronteira entre eles não seja tão clara, como numa fita de mobius. Nenhum desses estados é permanente. Estão sempre se referindo em sua ambiguidade e fluidez, o prazer e o desprazer. Assim a dor apura nossos sentidos e disposião à felicidade, e aquilo que nos faz bem nos ajuda a entender o que nos faz mal.

Contudo essa força e esse impulso extraordinário de viver, seja o que for, não foi inaugurado por Horácio. Não há como traçar na história a origem dessa disposição à vida.  Mas para Horácio, assim como para o poeta Lucrécio, esse modo de viver lhes chegou por meio da  tradição filosófica grega fundada por Epícuro de Samos (341 a.C – 270 a.C), o Epicurismo. Porém, antes de seguir o curso desse rio rumo ao epicurismo, gostaria de aproveitar o subterfujo para transcrever mais um trecho de um poema do Horácio de Flaco. 

Fragmentos Ode II, 16

[…]

“Porque, assim, tanto, intrépidos, visamos,

Se a vida é breve? Buscar outra terra,

Sob um outro sol? Mas quem, fugindo a pátria, Foge a si mesmo?

[…]

Alegre no presente, que a alma odeie

Os cuidados futuros, e a amargura,

Adoce-a, a rir: felicidade inteira,

Essa não há.

Morte precoce arrebatou Aquiles,

Longa velhice consmumiu Titono,

Talvez o fado me conceda aquilo Que te negou.”

Bibliografia:

HORÁCIO, Odes e Epodos. Ed. Martins Fontes, São Paulo, 2013.

tradução de Bento  Prado de Almeida Ferraz.

Projeto Gutenberg tem a obra completa de Horácio disponível gratuitamente em Inglês:

http://www.gutenberg.org/ebooks/14020

*imagem: Leitura de poema por Horácio, Fyodor Bronnikov, 1863.